Crônicas do Fundo do Lago - Margens Plácidas
Nota do autor:
"Margens plácidas", diz um hino macronacional que imagino ser de conhecimento de todos os leitores. Talvez não seja de conhecimento do leitor é que este que vós escreve está fora do convívio rotineiro do Reino do Manso, de forma que faz sentido dizer que minha vida pública esteja no fundo do poço, ou melhor, no fundo do Lago do Manso. E é desse fundo que escrevo e tenho como intenção voltar a ter prazer com o hobby.
Percebo agora que não me apresentei, e que o leitor não tem nenhuma obrigação de me conhecer previamente, então... Milton, muito prazer. Existem alguns adjetivos, cargos e títulos que podem ser colocados depois desse nome, mas eles são de pouca serventia para esta crônica no momento, optarei por deixar-lhes de fora enquanto não forem necessários, identificando-me apenas como cidadão manseano.
Confesso que ainda não sei qual o objetivo dessa crônica, se será periódica ou sequer se terá uma continuação, mas estou fazendo porque estou me alegrando ao fazer, lidemos com isso. Aos curiosos que se mantiverem por aqui, sejam bem vindos a minha pequena poça de convivência, fiquem a vontade e desfrutem do texto.
Azul esverdeada, a luz atravessa a barreira que separa os mundos de forma tremeluzente, como se iluminasse uma joia de brilho sem igual. Aos ouvidos, os sons parecem abafados, é difícil de discernir de onde eles vêm, parecem reverberar ao redor do lugar inteiro. Os movimentos são arrastados, preguiçosos, adormecidos, como se ambiente compelisse pela manutenção de sua calmaria, mas um pouco de esforço torna possível a exploração.
Meu caminhar encontra uma resistência macia, o solo vermelho envolve os pés como se fossem as raízes das plantas que me rodeiam. São folhas longas e finas, que sobem em direção à barreira de refração, buscando a fonte de luz que lhe alimenta. Entre delgados e verdes arbustos é possível vislumbrar fragmentos que vieram da superfície. Um tronco escuro de uma arvore que foi submersa em vida, suas folhas a muito já se dissolveram. Um brilho cintilante de um anel perdido cujo par foi derretido e seus donos separados. Uma fotografia, apagada pelo tempo, que já não guarda a memória de alguém que foi bem quisto.
É melancólico no mesmo tano que é belo, como uma coleção de histórias em um museu. Poderia passar horas aqui embaixo, mas o tempo é limitado.
Consigo ver de relance um movimento rápido pelo canto do olho. Me viro rapidamente! Capturo apenas o brilho prateado de suas escamas contra o fundo escuro, como o de um céus estrelado, antes que fuja por entre as pedras. Sigo no seu encalço, sem conseguir de fato me aproximar, mas sendo levado por caminhos que não faria. Seus movimentos ágeis me deixam para trás rapidamente, abanando sua cauda uma ultima vez antes de desaparecer no ambiente. Está muito mais adaptado do que eu.
A consciência da inaptidão me faz perceber que meu tempo esta acabando. Um leve ardor no peito indica que preciso voltar. Finco mais uma vez os pés no solo lamacento, que me abraça como se estivesse se despedindo. As pernas impulsionam com força, me projetando em direção da luz cristalizada e difusa. Consigo sentir o calor se espalhando conforme me aproximo, sigo em frente com a pressa de quem se demorou demais. Com uma batida final de pernas me lanço de encontro ao clarão... E estou de volta às margens quietas do Lago do Manso.
Milton Costa
Marquês de Nova Arcádia

Bosque dos Sonhos, 18 de agosto de 2026,
5º ano da fundação de Nova Arcádia,
8º ano da fundação do Reino.

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